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Entrevista | Michel Goya, Head da Jamef Hospitalar

Em entrevista à Business & Science, Michel Goya, Head da Jamef Hospitalar, analisa os principais gargalos da logística de OPME, como processos fragmentados, conferências manuais, autorizações tardias, estoques mal dimensionados, transportes emergenciais, falhas de rastreabilidade e glosas. O executivo defende uma operação integrada, apoiada por inteligência artificial, dados compartilhados, estoques regionalizados, rastreabilidade por instrumental e protocolos digitais, capaz de conectar fabricantes, distribuidores, hospitais, operadoras e operadores logísticos. Para Goya, o futuro do setor está na transformação da logística de um centro de custos reativo em uma estrutura estratégica de eficiência, previsibilidade, segurança e sustentabilidade financeira

Entrevista | Michel Goya, Head da Jamef Hospitalar

Entrevista | Michel Goya, Head da Jamef Hospitalar

A logística de produtos para a saúde ocupa uma posição decisiva na jornada cirúrgica. Em operações de OPME, não basta transportar caixas entre fornecedores e hospitais: é necessário garantir que implantes, instrumentais e equipamentos cheguem ao destino correto, no momento adequado, completos, funcionais e com plena rastreabilidade.

Essa cadeia, porém, ainda convive com processos fragmentados, conferências manuais, autorizações tardias, estoques mal dimensionados, deslocamentos emergenciais e falhas de comunicação que ampliam custos, geram glosas e podem comprometer a eficiência da operação. Em um ambiente de alta complexidade, tecnologia e capilaridade precisam estar acompanhadas de processos bem desenhados, integração de dados e conhecimento técnico especializado.

É nesse cenário que a Jamef Hospitalar busca ampliar o papel do operador logístico, avançando do transporte e da armazenagem para uma atuação integrada na gestão de materiais, instrumentais, equipamentos e informações ao longo da cadeia cirúrgica.

Em entrevista à Business & Science, Michel Goya, Head da Jamef Hospitalar, analisa os principais gargalos da logística de OPME, os custos ocultos da operação, o futuro dos estoques consignados, o uso de inteligência artificial, a rastreabilidade por instrumental, a formação de profissionais e o desafio de construir uma visão verdadeiramente integrada — do fornecedor ao centro cirúrgico.


1. Michel, no Fórum ABRAIDI de 2025, você afirmou que a tecnologia somente funciona quando está acompanhada de processos bem executados. Hoje, quais processos da logística de OPME continuam mais frágeis: solicitação, separação, transporte, conferência, consumo, devolução ou faturamento?

Não adianta digitalizar processos ruins; o resultado é apenas uma ineficiência automatizada. Tão importante quanto desenhar processos claros e bem implementados é garantir que eles sejam seguidos na íntegra por todas as pontas da cadeia. Qualquer desvio de processo expõe toda a operação de OPME a riscos severos, do desabastecimento em sala à perda de rastreabilidade e ao colapso financeiro.

Sob essa ótica, os processos que continuam mais frágeis hoje principalmente são a conferência, o registro do consumo e a devolução.

A solicitação de material, a separação em estoque e o transporte evoluíram bastante com a maturação dos sistemas. O problema central são as rotinas de conferências manuais, que muitas vezes são falhas. Quando a equipe na ponta "pula etapas" ou improvisa à margem do protocolo, cria-se um ruído de dados que invalida a tecnologia utilizada e desencadeia o ciclo desastroso de gargalos no faturamento e glosas.


2. No TecMed Brasil 2026, um dos debates centrais foi justamente sobre os “custos ocultos” da logística de produtos para a saúde. Quais custos mais preocupam: estoques parados, deslocamentos emergenciais, caixas processadas e não utilizadas, perdas de instrumentais, retrabalho ou glosas?

É inegável que as glosas e o represamento financeiro representam um peso enorme na última linha do balanço das empresas. No entanto, se focarmos estritamente na ótica da cadeia de suprimentos, a ineficiência operacional é, sem dúvida alguma, o principal custo oculto e o maior vilão do setor. O que mais nos preocupa no dia a dia é o deslocamento emergencial desnecessário: aquele transporte dedicado e caríssimo acionado para apagar um incêndio que poderia ter sido evitado com comunicação padronizada e planejamento, somado ao dimensionamento equivocado de materiais em estoque para o atendimento. 

Esse erro de dimensionamento não se limita apenas ao volume de itens parados nas prateleiras dos hospitais ou nos braços dos distribuidores; ele inclui, de forma muito crítica, os materiais que compõem cada kit cirúrgico. Enviar caixas superdimensionadas, cheias de itens que não serão utilizados no procedimento, gera um desperdício invisível em cascata: encarece o transporte, sobrecarrega a CME (Centro de Material e Esterilização) com processamentos inúteis e acelera a perda e o desgaste do instrumental.

Como estamos falando de OPMEs, que são materiais de altíssimo custo e complexidade, não há margem para amadorismo. Ter uma gestão operacional profunda e baseada em dados reais não é apenas um diferencial logístico, é um pilar fundamental para garantir a sustentabilidade financeira do ecossistema.


3. Em debates da ABRAIDI, foi mencionado que o intervalo entre o pedido médico de OPME e sua entrega pode chegar a aproximadamente 20 horas. Onde esse tempo é consumido e quanto dele poderia ser eliminado com integração entre hospital, operadora, distribuidor e operador logístico?

Esse tempo de 20 horas é consumido primariamente no "ping-pong" burocrático de autorizações e na checagem, normalmente manual, de elegibilidade dos itens entre operadora, fornecedor e hospital. A logística física de transporte representa uma fração pequena desse intervalo. Normalmente a demanda chega para a logística com informações falhas ou com SLA muito curto. Estimo que entre 50% e 60% desse tempo poderia ser eliminado se tivéssemos interoperabilidade sistêmica, onde a aprovação do agendamento cirúrgico disparasse automaticamente a ordem de separação de materiais e a solicitação de transporte no operador logístico, eliminando telefonemas, e-mails, planilhas e conferências duplicadas.


4. A logística hospitalar ainda é muito reativa. A cirurgia é confirmada em cima da hora, o fornecedor precisa montar as caixas, localizar implantes, separar motores e encontrar transporte. Estamos diante de urgências clínicas reais ou de falhas recorrentes de planejamento?

Na grande maioria das vezes, estamos lidando com falhas de planejamento e gargalos de comunicação na cadeia suplementar, e não com urgências médicas vitais. A cirurgia já está programada pela equipe médica e combinada com o paciente dias ou semanas antes, mas o processo de liberação da guia pela operadora ocorre na véspera. Isso empurra toda a cadeia para uma operação de "emergência", exigindo movimentação e transporte na madrugada, aos finais de semana ou feriados e regimes de emergência que encarecem o sistema.


5. Como estabelecer um SLA para uma operação na qual o cirurgião pode mudar a técnica, o hospital alterar o horário, a operadora atrasar a autorização e o procedimento ser incluído na agenda poucas horas antes?

Um SLA eficiente no complexo setor de saúde não pode ser rígido nem baseado em um modelo único de prateleira. Para lidar com tantas variáveis, o engessamento não funciona. Na Jamef Hospitalar, nós trabalhamos com matrizes dinâmicas, entendendo a fundo o escopo operacional de cada cliente, seus cenários de contingência e os diferentes níveis de criticidade.

O grande segredo para que isso funcione na prática é ter regras muito claras e previamente combinadas com o cliente. Não existe receita pronta: as operações podem ser completamente diferentes de um parceiro para outro, cada um com modelos de negócios e necessidades operacionais totalmente distintas.

Por isso, o SLA precisa ser desenhado sob medida. Ele deve ser um acordo inteligente e transparente que preveja essas flutuações e exceções da saúde, como a cirurgia de última hora ou o atraso na autorização, estabelecendo fluxos e respostas logísticas específicas para cada um desses cenários. É esse alinhamento de expectativas e regras claras que blinda a operação e garante o atendimento na ponta.


6. Estoques consignados e disponibilidade cirúrgica

O estoque consignado oferece disponibilidade ao hospital, mas imobiliza o capital do fornecedor e frequentemente apresenta baixo giro. Como equilibrar segurança assistencial e eficiência financeira?

O equilíbrio entre segurança assistencial e eficiência financeira não será alcançado mantendo o modelo tradicional de estoque consignado estático. Imobilizar milhões de reais em materiais de alto valor e baixo giro dentro dos armários de centenas de hospitais é financeiramente insustentável para os distribuidores, além de gerar um risco enorme de perdas por vencimento e obsolescência.

Para resolver essa conta, a solução é migrar para uma consignação inteligente e dinâmica, baseada em inteligência de dados, previsibilidade de demanda e hubs logísticos avançados.

Na prática, isso exige desenhar a operação respeitando a curva de consumo real de cada cliente:

      Estoque de alta rotação na ponta: O hospital mantém fisicamente em suas instalações apenas os itens de altíssimo giro e as especificações indispensáveis para emergências reais.

      Estoques avançados e regionalizados: Os materiais de menor giro, de altíssimo valor ou de alta especificidade saem das prateleiras hospitalares e ficam centralizados em hubs logísticos estratégicos, como as estruturas da Jamef Hospitalar, prontos para reposição rápida sob demanda.

Garantir a segurança assistencial não significa ter o portfólio inteiro parado dentro do hospital; significa ter visibilidade total do estoque e uma logística de resposta altamente confiável. É essa eficiência operacional que destrava o capital imobilizado do fornecedor sem expor o paciente a qualquer risco de desabastecimento.


7. Como a Jamef pretende utilizar sua capilaridade nacional para reposicionar estoques de OPME conforme a demanda, em vez de simplesmente armazenar e transportar materiais?

A Jamef Hospitalar conta atualmente com 10 filiais próprias, licenciadas, com monitoramento de temperatura e umidade e regime especial fiscal, além de uma imensa frota própria com diferentes tipos de veículos e atua conectando essa rede com os fornecedores (indústria e distribuidor) à hospitais através de sistema próprio com algoritmos de otimização de malha. Em vez de enxergar o material como um item parado em uma prateleira, acompanhamos o ciclo de uso para promover a logística reversa e o reposicionamento ativo. Quando identificamos uma alta na demanda por determinados tipo de produto em uma região e sobra em outra, entra a inteligência artificial para realizarmos o redimensionamento de estoque antes que ocorra o desabastecimento local e garantindo a máxima eficiência operacional.


8. É possível prever a demanda cirúrgica com dados históricos, agenda médica e inteligência artificial ou a baixa integração dos sistemas ainda impede esse tipo de planejamento?

A tecnologia e os modelos de IA preditiva já estão aplicados ao nosso sistema e processos: o entrave atual é a baixa interoperabilidade e a fragmentação dos dados entre os atores do setor. No entanto, quando integramos históricos de consumo por especialidade, sazonalidade de procedimentos e agendas hospitalares, já conseguimos projetar tendências de consumo com precisão relevante. O futuro próximo da logística de saúde passa necessariamente por essa convergência preditiva.


9. Quando uma cirurgia é cancelada depois que as caixas já foram separadas, transportadas e processadas pela CME, existe um custo real, embora pouco visível. Quem deveria medir e assumir esse desperdício?

Na realidade, todos nós pagamos esse custo, com sucessivos reajustes dos planos de saúde. Na prática, esse custo é absorvido informalmente pelo fornecedor (que arca com o desgaste do instrumental e o transporte desnecessário) e pelo hospital (que gasta água, energia, insumos e tempo de equipe na CME). Esse desperdício deve ser medido por todos os players através de KPIs compartilhados de governança clínica e logística. Contratualmente, deve haver previsão de taxas de cancelamento tardio não justificado por razões clínicas, incentivando os agentes a aprimorarem a previsibilidade da agenda cirúrgica.


10. Instrumentais e complexidade operacional

Uma cirurgia ortopédica, cardiovascular ou de coluna pode envolver diversas caixas e centenas de componentes. Como garantir que o conjunto correto chegue completo, funcional e compatível com o implante escolhido?

Garantimos a integridade do conjunto combinando padronização rigorosa de processos com tecnologia de verificação em dois níveis. A caixa não é tratada como um volume único selado, mas como uma árvore de itens, que garante inclusive a rastreabilidade junto a ANVISA. A expedição passa por checagem técnica via leitura de código 2D/DataMatrix e conferência automatizada por listas de checagem digitais atreladas à ordem cirúrgica específica do médico.


11. Muitos instrumentais possuem pequenas diferenças de medida, encaixe ou geração tecnológica. Como impedir que uma peça visualmente semelhante, mas incompatível, seja incluída em uma caixa?

Confiar apenas na conferência visual humana é um risco muito alto. A solução é a rastreabilidade em nível de peça por DPM (Direct Part Marking), gravação a laser de códigos DataMatrix diretamente no corpo do instrumental metálico, combinada com uma equipe rigorosamente treinada, além de leitores de código de barras para produtos descartáveis. Tudo isso combinado com um sistema de processos BPM que analisa, processa e garante a segurança em cada etapa. Se o operador bipar um produto divergente do solicitado, o sistema bloqueia o processo de separação.


12. Ainda encontramos conferências feitas por planilhas, fotografias e conhecimento individual dos colaboradores. É possível construir uma rastreabilidade por instrumental, e não apenas por caixa?

Sim, é totalmente possível, mas isso deve ser alinhado com o cliente (proprietário do ativo). São necessários alguns pré-requisitos, como identificação e padronização item a item, que são premissas básicas para garantirmos a rastreabilidade do material.


13. Os instrumentais têm vida útil, desgaste e necessidade de manutenção preventiva. Quem deveria controlar esse ciclo: fabricante, distribuidor, hospital ou operador logístico?

A responsabilidade de controlar o ciclo é de quem faz a gestão do material. Quando a operação logística é terceirizada o operador logístico especializado é o agente ideal para gerenciar esse controle, pois ele atua como o ponto neutro de passagem obrigatória do instrumental entre o uso e a armazenagem. Acompanhando o histórico de uso e os ciclos de processamento registradas no sistema logístico, é possível emitir alertas automáticos de manutenção preventiva ou calibração antes que o instrumental apresente falha dentro de um centro cirúrgico.


14. A Jamef pretende assumir atividades como montagem de caixas, conferência técnica, controle de manutenção e gestão de kits por procedimento ou permanecerá concentrada no transporte e na armazenagem?

A Jamef Hospitalar não se limita ao transporte e à armazenagem convencionais. O foco estratégico é atuar como um Operador Logístico Integrado de Saúde (3PL/4PL). Isso engloba a gestão completa, incluindo a conferência técnica, a gestão de kits e o suporte na logística de instrumentais, implantes e equipamentos em sinergia com os distribuidores e fabricantes.


15. Instrumentadores e conhecimento técnico

O instrumentador não é apenas alguém que entrega uma caixa. Ele conhece a técnica, a sequência dos passos, as preferências do cirurgião e as possíveis alternativas durante o procedimento. Como inserir essa complexidade humana em um processo logístico padronizado?

O instrumentador é um elo técnico-assistencial fundamental no ato cirúrgico. Contudo, é preciso entender que, por mais complexa ou dinâmica que pareça a atuação humana, praticamente qualquer rotina operacional pode ser mapeada, incorporada a um processo claro e medida por meio de indicadores de desempenho.

Inserir essa complexidade na logística significa compreender com profundidade as particularidades do papel do instrumentador cirúrgico ou do técnico em sala para desenhar fluxos verdadeiramente customizados às suas necessidades.


16. Existe hoje mão de obra suficiente e adequadamente preparada para instrumentar procedimentos de alta complexidade, operar tecnologias distintas e acompanhar diferentes equipes médicas?

Não, atualmente o setor vive um gargalo real de mão de obra qualificada diante do avanço rápido de novas tecnologias em saúde. Essa escassez reforça a necessidade de transformar rotinas operacionais em processos padronizados suportados por sistemas digitais, reduzindo a sobrecarga sobre esses profissionais e deixa claro a necessidade de centros de ensino e capacitação de profissionais para atuar em medical devices, incluindo plano de carreira.


17. Até que ponto a dependência do conhecimento individual do instrumentador representa um risco operacional? Esse conhecimento pode ser transformado em protocolos digitais, mapas cirúrgicos e listas de conferência?

A dependência excessiva do conhecimento não documentado gera vulnerabilidade operacional para distribuidores e hospitais. Esse conhecimento tácito deve ser traduzido em Surgical Preference Cards (Cartões digitais de preferência cirúrgica). Quando o sistema armazena as preferências específicas de cada cirurgião para determinado procedimento, a montagem do kit se torna padronizada, independente de quem esteja na operação logística no dia. Na Jamef Hospitalar já é possível customizar preferências dessa maneira.


18. Motores, serras e equipamentos elétricos

Motores, serras, perfuradores, baterias e carregadores apresentam riscos diferentes dos implantes. Como garantir que cheguem carregados, testados, completos e dentro do ciclo de manutenção?

Equipamentos eletromédicos ativos devem ser tratados sob a lógica de gestão de ativos críticos. Na saída do armazém logístico, é obrigatória a aplicação de um protocolo de teste operacional: medição de carga e ciclo de baterias, teste de rotação/torque e checklist visual de componentes (cabos, pedais, peças de mão). O kit só é liberado para transporte após a constatação de conformidade técnica.


19. Em uma cirurgia de alta complexidade, a falha de uma bateria ou de um motor pode interromper o procedimento. O modelo logístico deveria prever equipamentos redundantes em todas as cirurgias críticas?

Para procedimentos de alta complexidade (como cirurgias de coluna, neurocirurgias ou reconstruções ortopédicas), a gestão de risco logístico deve prever módulos de redundância crítica, como peças de mão adicionais ou baterias reservas testadas incluídas na mesma expedição, evitando interrupções operacionais graves no campo estéril.


20. Quando ocorre a quebra de uma serra ou de um instrumental, frequentemente é difícil identificar se a causa foi desgaste, transporte, processamento na CME ou uso inadequado. Como criar uma cadeia de custódia capaz de atribuir responsabilidades de maneira objetiva?

A resposta é a criação de uma Cadeia de Custódia Digital com Checkpoints. Cada etapa de transição da caixa requer registro: o operador entrega com inspeção visual/digital, a CME recebe e assina a conformidade, a equipe do centro cirúrgico atesta o estado do equipamento e a coleta do pós-cirúrgico registra o estado de devolução. Havendo divergência ou dano, o registro de fotos e a assinatura temporal no ponto exato da passagem isolam a causa. Um sistema com aplicativo torna esse processo integrado ágil e eficiente.


21. Glosas, documentação e rastreabilidade

O Anuário ABRAIDI 2026 apontou R$ 5,787 bilhões em pagamentos pendentes ou não realizados, com prazo médio para autorização do faturamento chegando a 170 dias. Até que ponto essa demora decorre da falta de informações confiáveis sobre entrega, uso e devolução dos materiais?

Uma parcela muito significativa dessa inadimplência e do prazo alongado decorre da assimetria de informações e da fragilidade do Last-Mile. A ausência de comprovantes incontestáveis de entrega no prazo, a falta de clareza sobre o que foi efetivamente utilizado na sala e a demora na consolidação da documentação de devolução geram contestação imediata pelas operadoras e auditores, paralisando o fluxo de faturamento.


22. Segundo a mesma pesquisa, 74% das empresas relataram enfrentar glosas, e 35% das contas contestadas já haviam sido previamente aprovadas. A logística pode produzir um dossiê digital da cirurgia capaz de reduzir essas disputas?

Sem dúvida. Essa é uma das maiores contribuições que uma logística moderna pode dar ao setor: a consolidação do Dossiê Digital da Cirurgia. Esse documento unificado reúne a autorização prévia, a confirmação de entrega no hospital com carimbo de geolocalização, os códigos dos lotes dos implantes consumidos, a folha de sala validada e o comprovante de devolução do excedente. Com esse dossiê digital auditável, a margem para contestação documental e glosa arbitrária reduz-se drasticamente. Informações e controle de ponta a ponta.


23. A ABRAIDI também tem criticado a multiplicidade de portais de compras, que digitalizam a cotação, mas nem sempre acompanham o ciclo até o faturamento. A Jamef pretende integrar diferentes plataformas e oferecer uma visão única da operação?

Sim. A Jamef Hospitalar, em parceria com a Surgical Mapp, atua com um barramento de integração de sistemas (middleware) capaz de se conectar portais de compras do mercado (Inpart,  entre outros) e ERPs de Hospitais e fornecedores. A proposta é centralizar as etapas operacionais e logísticas sob um único dashboard de visibilidade ponta a ponta, permitindo que o fornecedor acompanhe a jornada do pedido independentemente da plataforma em que a negociação comercial foi originada.


24. O “last meter” dentro do centro cirúrgico

A logística tradicional termina quando o material é entregue ao hospital. Na cirurgia, porém, existe o “last meter”: o percurso entre o recebimento, a CME, a sala, a mesa cirúrgica e o campo estéril. A Jamef pretende assumir responsabilidade sobre esse último metro? E como fazer isso sem invadir atribuições assistenciais, sanitárias e técnicas do hospital e do instrumentador?

O papel no last meter é de suporte tecnológico, logístico e de rastreabilidade, e não de atuação assistencial direta no paciente. A Jamef Hospitalar apoia a visibilidade da cadeia até a entrada do bloco cirúrgico e da CME, fornecendo ferramentas digitais para facilitar o recebimento, a conferência acelerada do material e a conciliação das sobras. Todo o ato cirúrgico, o manuseio asséptico e a decisão assistencial permanecem sob responsabilidade exclusiva da equipe médica, de enfermagem e dos instrumentadores habilitados. Nosso papel se limita a gestão do material.


25. Pergunta de encerramento

Hoje existem operadores logísticos, empresas de tecnologia, distribuidores e hospitais tentando resolver partes desse processo, mas nenhuma companhia se tornou um benchmark completo. Qual será a diferença concreta da Jamef Hospitalar: capilaridade, tecnologia, conhecimento técnico, integração de dados ou capacidade de assumir a operação até a mesa cirúrgica?

A Jamef Hospitalar é a combinação entre a capilaridade da malha logística nacional da Jamef Transportes com uma unidade totalmente especializada, verticalizada e dedicada às demandas da medical devices.

Não oferecemos apenas transporte expresso com licença sanitária, nem nos limitamos a vender um software de rastreabilidade. Nós unimos a maior infraestrutura física do país , com alcance nacional, que inclui inclusive transporte aéreo, a inteligência de dados integrada e a governança operacional com conhecimento profundo das dores de OPME. Nosso propósito é padronizar, unificar e transformar a logística de um centro de custos reativo em um motor de eficiência, previsibilidade e sustentabilidade financeira para todo o ecossistema de saúde.