Entrevista | Gislaine Ricci Leonardi, professora e pesquisadora da Unicamp
A Prof. Gislaine Ricci Leonardi defende que transformar ciência em inovação exige uma ponte estruturada entre universidade, indústria e sociedade. Essa colaboração deve começar nas etapas iniciais, reunir diferentes competências e definir com transparência investimentos, riscos e responsabilidades. A indústria pode contribuir com recursos, infraestrutura e demandas reais, preservando a autonomia, a ética e o rigor científico. Para a Prof. Gislaine Ricci Leonardi, aproximar esses ambientes também fortalece a formação profissional e permite que mais pesquisas brasileiras se convertam em produtos, desenvolvimento e benefícios concretos para a sociedade.

Entrevista | Gislaine Ricci Leonardi, professora e pesquisadora da Unicamp
Professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Unicamp, Gislaine Ricci Leonardi construiu uma trajetória dedicada à pesquisa, ao ensino e à inovação em cosmetologia e ciências farmacêuticas. Graduada em Farmácia pela USP de Ribeirão Preto, é mestre em Fármaco e Medicamento, doutora em Ciências Farmacêuticas, pós-doutora pela Unicamp e livre-docente em Cosmetologia. Também lidera um grupo de pesquisa do CNPq voltado ao desenvolvimento e à avaliação de formulações cosméticas e dermatológicas.
Em entrevista à Business & Science, Gislaine analisa o que precisa mudar para que o conhecimento produzido nas universidades brasileiras se transforme com mais frequência em inovação para a sociedade. A conversa aborda cocriação entre universidade e empresa, propriedade intelectual, financiamento privado da pesquisa, independência científica, formação profissional e o desafio de atravessar o chamado “vale da morte” entre uma descoberta promissora e um produto capaz de chegar ao mercado.
Business & Science: Sua trajetória reúne pesquisa acadêmica, desenvolvimento tecnológico, patentes e uma tecnologia que chegou ao licenciamento. Na sua experiência, o que precisa acontecer para que uma boa descoberta científica saia da universidade e efetivamente se transforme em inovação para a sociedade?
Gislaine Ricci Leonardi: Na minha experiência, uma boa descoberta científica se transforma efetivamente em inovação quando existe uma ponte estruturada entre o conhecimento gerado na universidade e as necessidades reais da sociedade e do mercado.
Mais do que uma relação pontual de transferência de tecnologia, acredito que é fundamental construir uma parceria que favoreça a cocriação de conhecimento, na qual universidade e empresa contribuam com suas diferentes competências desde as etapas iniciais do desenvolvimento. A universidade traz o conhecimento científico, a capacidade de investigação e a geração de novas soluções, enquanto a empresa contribui com a visão de mercado, as necessidades do consumidor, a escalabilidade e o conhecimento sobre os processos de produção e comercialização.
Business & Science: Você possui patentes depositadas e já viveu a experiência de ter uma propriedade intelectual da Unicamplicenciada. Na prática, qual é a etapa mais difícil desse caminho: desenvolver a tecnologia, protegê-la, encontrar uma empresa interessada ou transformá-la em um produto comercialmente viável?
Gislaine Ricci Leonardi: Nenhuma dessas etapas é simples. Cada uma apresenta desafios específicos e exige competências diferentes. Por isso, acredito que contar com uma equipe multiprofissional e multidisciplinar, envolvendo pesquisadores, profissionais especializados em propriedade intelectual e transferência de tecnologia, além de parceiros com conhecimento de mercado, produção e regulamentação, é importante. Cada profissional contribui com uma perspectiva e uma competência diferente, permitindo antecipar desafios e tomar decisões mais adequadas em cada fase.
Business & Science: O Brasil produz ciência de excelente qualidade, mas ainda existe uma distância importante entre publicação científica, patente, transferência de tecnologia e produto. O que precisamos mudar para reduzir esse espaço entre conhecimento e mercado?
Gislaine Ricci Leonardi: acredito que precisamos fortalecer uma cultura de cocriação entre universidade e empresa, criando relações mais próximas e de longo prazo, nas quais o conhecimento científico e as demandas do setor produtivo possam se complementar.
Hoje já existem programas específicos de fomento que estimulam e viabilizam essas parcerias entre o meio acadêmico e o setor empresarial. Precisamos ampliar essas iniciativas e, principalmente, facilitar cada vez mais o diálogo entre esses dois ambientes.
Business & Science: Existe ainda dentro da universidade brasileira algum preconceito em relação ao pesquisador que se aproxima da indústria, desenvolve patentes ou participa da criação de produtos comerciais? E, do outro lado, a indústria brasileirasabe aproveitar todo o potencial científico existente nas universidades?
Gislaine Ricci Leonardi: Acho que essa é uma questão muito ampla. O que percebo, a partir da minha experiência, é que cada vez mais existe um ambiente de apoio e incentivo para que essas parcerias aconteçam. A aproximação com a indústria, o desenvolvimento de patentes e a transferência de tecnologia vêm sendo reconhecidos como importantes formas de fazer com que o conhecimento produzido na universidade alcance a sociedade.
Ainda temos desafios a superar, tanto dentro da universidade quanto no setor empresarial, especialmente no sentido de aproximar culturas e linguagens diferentes e criar relações de confiança. Mas vejo uma mudança positiva nesse cenário. Hoje existem políticas institucionais, programas de fomento e estruturas de apoio à inovação que favorecem essa aproximação.
Business & Science: Pesquisa de alto nível exige equipamentos, insumos, infraestrutura, bolsas e profissionais qualificados. Diante das limitações de financiamento público, qual deveria ser o papel da indústria no fortalecimento da pesquisa realizada pelas universidades brasileiras?
Gislaine Ricci Leonardi: O papel da indústria pode ser bastante diverso e vai muito além do apoio financeiro. A indústria pode contribuir desde a identificação de problemas e demandas reais que precisam de soluções, trazendo para a universidade desafios concretos do setor produtivo, até o fornecimento de infraestrutura e conhecimento técnico.
Além disso, pode participar do desenvolvimento conjunto das pesquisas e, também oferecer apoio financeiro para viabilizar projetos, aquisição de equipamentos, bolsas e outras necessidades da pesquisa.
Business & Science: Quando uma empresa financia uma pesquisa dentro de uma universidade pública, surge naturalmente a discussão sobre conflito de interesse. Como construir uma relação em que o investimento privado fortaleça a pesquisa sem comprometer a independência científica, a transparência e a credibilidade dos resultados?
Gislaine Ricci Leonardi: Independentemente dos interesses legítimos de cada parte, a pesquisa científica precisa ser conduzida com ética, transparência e propósito científico. O fato de uma empresa financiar ou participar de uma pesquisa não pode comprometer a autonomia do pesquisador, a metodologia científica ou a apresentação dos resultados.
Para isso, é fundamental que as parcerias sejam estabelecidas de forma clara e transparente, com responsabilidades, critérios e regras bem definidos desde o início, respeitando as normas institucionais e os princípios de integridade científica.
O compromisso do pesquisador deve ser, acima de tudo, com a ciência, com a ética e com a geração de conhecimento de qualidade. É justamente essa independência que dá credibilidade à universidade e torna a parceria com a indústria sustentável e benéfica para todos os envolvidos.
Business & Science: Qual modelo tende a gerar mais inovação: a empresa procurar a universidade quando o produto já está praticamente desenvolvido ou universidade e indústria identificarem juntas um problema e construírem a solução desde o início?
Gislaine Ricci Leonardi: Novamente, acho difícil generalizar ou colocar o processo de inovação em modelos tão engessados. Cada caso é um caso, e diferentes estratégias podem funcionar dependendo da tecnologia, da área de conhecimento e das características da empresa.
Business & Science: Entre a descoberta acadêmica e a chegada de uma tecnologia ao mercado existe o chamado “vale da morte” da inovação. Quem deveria assumir o investimento e o risco necessários para atravessar essa etapa e como equilibrar os interesses da universidade, dos pesquisadores e das empresas?
Gislaine Ricci Leonardi: Essa questão precisa ser discutida e estabelecida desde o momento em que universidade e empresa começam a construir um acordo de cooperação. É importante definir, com clareza, transparência, quais serão as responsabilidades de cada parte
Business & Science: 9. Você também participa diretamente da formação de novos profissionais e pesquisadores. Uma aproximação maior entre universidade e indústria pode contribuir para formar profissionais mais preparados para inovação, empreendedorismo e para os problemas reais do mercado, sem enfraquecer a formação científica?
Gislaine Ricci Leonardi: Sem dúvida. A aproximação entre universidade e indústria pode contribuir muito para a formação de profissionais mais preparados para lidar com os desafios da inovação. Tenho percebido, inclusive, um movimento muito interessante: profissionais já consolidados na indústria procuram cada vez mais a universidade para aprofundar sua formação, atualizar conhecimentos e desenvolver novas competências.
Acredito muito no poder transformador do conhecimento. O conhecimento abre muitas portas e proporciona novas perspectivas, permitindo que o profissional enxergue problemas de diferentes maneiras e encontre soluções mais criativas e fundamentadas.
Na Unicamp, essa aproximação também é estimulada institucionalmente por meio da Agência de Inovação Inova Unicamp, que atua na conexão entre grupos de pesquisa e empresas, além de apoiar parcerias e projetos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Esse ambiente favorece justamente essa interação entre conhecimento acadêmico e aplicação prática.
Business & Science: Se conseguíssemos aproximar muito mais universidade e indústria no Brasil, preservando independência científica, transparência e rigor, o que poderíamos entregar à sociedade que hoje ainda estamos deixando de entregar?
Gislaine Ricci Leonardi: Temos uma ciência de muita qualidade no Brasil. Um desafio é fazer com que uma parcela cada vez maior desse conhecimento ultrapasse os muros da universidade e se transforme em inovação, riqueza e desenvolvimento para a sociedade.
Business & Science: Agradecemos novamente sua disponibilidade e a contribuição para esta iniciativa.
Gislaine Ricci Leonardi: Foi um prazer participar e compartilhar um pouco da minha experiência e da minha visão sobre a importância da aproximação entre universidade, indústria e sociedade
